Sem noção de amor fraterno// O homem agride o irmão,// Num ato que mostra o inferno// Que trás em seu coração.

Rosa Regis Brincando com os Versos

Pensares que se transformam //espalhando poesia, //pegam carona no vento// enchem meu ser de alegria

Textos



                    AS IDÉIAS DO CANÁRIO          
(Releitura em cordel)

Da Obra de Edson Gabriel Garcia
Numa releitura de MACHADO DE ASSIS
No seu livro “O Alienista e Outros Contos”


Cordelizado por: Rosa Regis

Era uma vez um pardal
Que se chamava Dadá
Que veio de muito longe!
Das bandas do Quixadá!
Para tentar uma nova
Vida pros lados de cá.

Era quase Seis da tarde
Quando o pardalzinho pousou
Num galho seco de árvore
Magrinha, e lá ficou.
Em uma praça qualquer
Cujo nome me faltou.

Voara a tarde inteirinha
De um para outro lado:
Do Brejo pro milharal,
Do milharal pro roçado,
Do roçado para a praça...
Sem nunca ficar parado.

Voava e mais voava
Como se tendo perdido
Algo a que procurava.
Talvez fizesse sentido
Dizer que: não encontrava
Um bom lugar – bem servido.

Lugares interessantes,
Gostosos, tinha encontrado,
Mas sempre tinha um quê
Que o tornava indesejado:
Ventava muito ou o Sol
O tornava agoniado.

Ou ainda: não tinha sombra
Para que ele repousasse.
Ou não tinha água potável
Pra que bebesse e banhasse
Seu corpinho calorento
Quando dos vôos voltasse.

Assim vivia o pardal
Sonhando um dia encontrar
Um lugar que ideal
Fosse para repousar
Quando, de repente, ouviu
Um alegre e belo cantar.

Dadá parou para ouvir
De onde era aquele trinado,
E descobriu um canário
Que preso, engaiolado,
Cantava todo feliz
Como despreocupado.

Na loja de bugigangas,
Em meio à tralharia,
Suspenso numa gaiola,
Estufa, com alegria,
O peito, soltando a voz,
De música enchendo o dia.

O pardal se aproxima
Cheio de admiração:
Como é que o canário
Preso naquele alçapão
Ou gaiola, canta tanto?
E pergunta qual a razão.

O canário lhe responde
Que, ali, vive muito bem!
Tem comida e água fresca
Além de não ter ninguém
Para tirar-lhe o sossego
Que o pardalzinho não tem.

E o pardal lhe pergunta
O que fazer para ter
Um lugar pra ser feliz,
Um lugar bom pra viver!
A tal pergunta, o canário,
Com calma, vai responder:

- Isto é simples, meu amigo!
- Tu só tens que arranjar
Alguém pra ser teu escravo
Que irá te sustentar.
- E água fresca e comida
A ti não vai mais faltar.

Nosso pardal convencido
Que o canário estava certo,
Pôs-se a procurar alguém
Que o adote, ali por perto,
Desistindo de buscar
Um lugar a céu aberto.

Procurando, procurando...
Passou ele todo o dia
E mais outro, e mais outro...
Ninguém ao pardal queria!
Ele pensando consigo,
O porquê não entendia.

Com o dia já terminando,
Cansado de procurar,
À beira de um riacho
Onde tenta se banhar,
Em uma chácara ouve,
De chofre, um belo cantar.

Era o canto de um canário-
Do-reino! Tinha certeza.
Com a atenção redobrada,
Dadá, na sua esperteza,
Buscou ver de onde vinha
O brinde da Natureza.

- Cantando com tal beleza
E um prazer inegável,
O dono daquela voz,
Por certo, vida agradável,
Deve ter! -Vou procurá-lo.
Com certeza ele é afável.

Busca o pardal o viveiro
De pássaros, abarrotado!
São dezenas e dezenas
Que voam de um a outro lado.
E Dadá fica surpreso
Com a visão do inesperado.

Era o mesmo canarinho
Que ouvira horas atrás
Em meio às bugigangas
E que o recebe, ademais,
Com a mesma animação
De alguns dias atrás.

- Ainda estás procurando
Um bom lugar pra viver?
Pergunta o belo canário.
E o pardal, a responder:
- Até hoje, meu amigo,
Não consegui obter.

- Um escravo, uma gaiola,
Eu busco sem encontrar.
- Que gaiola o que, pardal!
Você tem que procurar
Um viveiro com este
Com espaço pra voar!

- Aqui eu tenho amigos
E sou bem alimentado,
Tenho espaço pra voar
De um para o outro lado;
Bela vista, água limpa,
Sombra,... Vivo sossegado.

- E a loja de bugigangas!
Você já a esqueceu?
Perguntou-lhe o pardalzinho.
E o canário respondeu:
- Quem lembra dela, é você!
Que busca o que não perdeu.

- Vivendo aqui neste mundo,
Acha que eu vou lembrar
De algo ou de outras coisas
Que não davam o bem estar
Que aqui eu estou tendo?
Diz o canário, a voar.

- Acho que não! O pardal
Responde, já concordando,
Enquanto o canário inquire
Dele, resposta buscando.
- Não achas que esta é a vida
Que tu andas procurando?

O pardal, analisando,
Com o canário concordou.
Pois que ali tinha tudo
Que ele sempre procurou.
- O canário tem razão
Em tudo que ele falou!

Um grande viveiro, agora,
Saiu ele a procurar,
Cheio de pássaros, comida,
Sombra para repousar,
Bela vista e água fresca
Que o pudesse refrescar.

Procurou e procurou
Por vilas e por cidades;
Por chácaras e por fazendas,
Sítios e belas herdades;
Buscando lugares frios,
Calmos, bonitos... Debalde.

Nenhum viveiro o quis.
Desistiu de procurar.
E um dia, à beira de um bosque,
Ouviu um belo cantar,
Dos mais belos que já ouvira!
Não podia se enganar.

Era um canário-do-reino,
Sem dúvida! E apurando
Seus ouvidos para ouvir
Onde é que estava cantando,
Percebe que o belo canto
Todo o bosque está tomando.

E foi com imensa alegria
Que o pardal localizou
O dono do belo canto.
E nem se sobressaltou.
Um pouco surpreso só
Ficou, quando o avistou.

- Que surpresa, meu amigo!
Diz o pardal, tom fagueiro.
- Surpresa nada! O mundo
É pequeno, companheiro!
- Surpresa, por vê-lo fora
Da gaiola, do viveiro!

- Que gaiola? Que viveiro?
De mim isso não faz parte!
- A minha vida é liberta,
Eu sempre a vivi com arte.
E aproveitar a vida
Foi sempre o meu estandarte.

- A minha vida é o mundo,
É o brilho do luar;
É o belo azul do céu;
É ver o sol a brilhar
Na correnteza do rio
Com a água mansa a passar.

- É o gostoso das árvores
Que sombreia, a resfrescar
Dias quentes de verão;
É o que eu consigo caçar.
- Nada mais... Ou tudo isso
Eu tenho pra aproveitar.

Pergunta, então, o pardal:
- Quer dizer que o viveiro
E a gaiola já não são
Bons lugares, companheiro?
Ideais para viver?
- Era o seu pensar primeiro!

- O lugar pra se viver,
O ideal, meu amigo!
Diz o canário:- é aquele
Onde se vive! E te digo:
É onde há liberdade,
Comida, sossego, abrigo.

- É onde há conversa e canto
E lugar para voltar
Com segurança, sem medo...
- Paremos de conversar!
Ou perderemos as sobras
De iscas à beira-mar.

- Ou seja: à beira do rio!
Que sobrou da pescaria.
- Quer melhor, pardal? Pergunta
O canário, com alegria,
Enquanto voa cantando
Feliz. É final do dia.

Pensa o pardal: - O canário
Tem mesmo toda a razão
Do mundo! - Eu acabei
De encontrar a solução
Pra minha busca sem fim.
- E isso traz-me emoção.

- Lugar e jeito ideais
Pra que se possa viver,
São aqueles que nos coube.
- Vivamos, pois, com prazer!
- Pois é vivendo o momento
Com graça e contentamento
Que feliz podemos ser.


Fim


Rosa Regis

Natal/RN – Brasil – Setembro de 2008
Rosa Regis
Enviado por Rosa Regis em 09/11/2008
Alterado em 26/07/2019
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