Sem noção de amor fraterno// O homem agride o irmão,// Num ato que mostra o inferno// Que trás em seu coração.

Rosa Regis Brincando com os Versos

Pensares que se transformam //espalhando poesia, //pegam carona no vento// enchem meu ser de alegria

Textos


 
 
PALESTRA SOBRE LITERATURA DE CORDEL
NO HOTEL BARREIRA ROXA

Rosa Regis


HISTÓRIA DA LITERATURA DE CORDEL

.Na época dos povos conquistadores greco-romanos, fenícios, cartagineses, saxões, etc, a literatura de cordel já existia, tendo chegado à Península Ibérica (Portugal e Espanha) por volta do século XVI.
.Na Península a literatura de cordel recebeu os nomes de "pliegos sueltos" na Espanha, e "folhas soltas" ou "volantes" em Portugal.
.Chegando ao Brasil floresceu, principalmente, na área que se estende da Bahia ao Maranhão.

Aqui eu faço uma sextilha sobre o que eu acabei de falar:

Os povos conquistadores
De Roma e da Grécia Antiga
Já tinham, em versos, contados,
Meu amigo, minha amiga,
As histórias de conquistas.
Faziam em rima e cantiga.


01 - O início

Cem anos de Cordel no Brasil

No Brasil, foi há aproximadamente cem anos que as histórias, acontecimentos, contos de tradição oral, foram impressos na forma de folhetos. Isso quer dizer que muitas histórias já existiam oralmente, porém sem registro conhecido. Temos informações de que o primeiro folheto de cordel impresso no Brasil aconteceu no final do século XIX, em 1890 pelo paraibano Leando Gomes de Barros.

E, aí, eu digo:

O grande mestre Leandro
De Barros, que emprestou
Régua e compasso a nós todos,
Cordelizando, afirmou,
Na Peleja de Riachão
Com o Diabo, e nos deixou.

Nos diz Leandro de Barros
"Esta peleja que fiz
não foi por mim inventada,
um velho daquela época
a tem ainda gravada,
minhas aqui são as rimas
exceto elas, mais nada."


Oriunda de Portugal, a literatura de cordel chegou no balaio e no coração dos nossos colonizadores, instalando-se na Bahia e mais precisamente em Salvador. Dali se irradiou para os demais estados do Nordeste.

Eu digo:

Vindo lá de Portugal
O cordel aqui chegou
No balaio e tomou conta,
Na Bahia se instalou.
Depois por todo o Nordeste
Ele se irradiou.


A evolução da literatura de cordel no Brasil não ocorreu de maneira harmoniosa. A oral, precursora da escrita, engatinhou penosamente em busca de forma estrutural. Os primeiros repentistas não tinham qualquer compromisso com a métrica e muito menos com o número de versos para compor as estrofes. Alguns versos alongavam-se inaceitavelmente, outros, demasiado breves. Todavia, o interlocutor respondia rimando a última palavra do seu verso com a última do parceiro, mais ou menos assim:

Repentista A
O cantor que pegá-lo de revés
Com o talento que tenho no meu braço...


Repentista B
Dou-lhe tanto que deixo num bagaço
Só de murro, de soco e ponta-pés.


Só por volta de 1750 é que apareceram os primeiros vates da literatura de cordel oral. Engatinhando e sem nome, depois de relativo longo período, a literatura de cordel recebeu o batismo de poesia popular.

E eu cordelizo estas informações assim:

Porém os primeiros vates
Só irão aparecer
Lá por Mil e Setecentos
E Cinqüenta e, pra valer,
Só depois de um longo tempo
É que nome ele vai ter.

E aí, de Poesia
Popular será chamado.
E o Manoel Riachão,
Mergulhão apelidado,
Parece ser o primeiro
Versejador registrado.


Passemos aqui às formas porque passam a Literatura de Cordel

02 - Parcela ou Verso de quatro sílabas

A parcela ou verso de quatro sílabas é o mais curto conhecido na literatura de cordel. A própria palavra não pode ser longa do contrário ela sozinha ultrapassaria os limites da métrica e o verso sairia de pé quebrado. A literatura de cordel por ser lida e ou cantada é muito exigente com questão da métrica. Vejamos uma estrofe de

Versos de quatro sílabas, ou parcela.

Eu sou judeu
para o duelo
cantar martelo
queria eu
o pau bateu
subiu poeira
aqui na feira
não fica gente
queimo a semente
da bananeira.


Quando os repentistas cantavam parcela (sim, cantavam, porque esta modalidade caiu em desuso), os versos brotavam numa seqüência alucinante, cada um querendo confundir mais rapidamente o oponente. Esta modalidade é pre-galdiniana, não se conhecendo seu autor.

Rapidez de raciocínio.

Na peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, da autoria de Firmino Teixeira do Amaral, encontramos estas estrofes:
Pretinho:


no sertão eu peguei
um cego malcriado
danei-lhe o machado
caiu, eu sangrei
o couro tirei
em regra de escala
espichei numa sala
puxei para um beco
depois dele seco
fiz dele uma mala


Cego:

Negro, és monturo
Molambo rasgado
Cachimbo apagado
Recanto de muro
Negro sem futuro
Perna de tição
Boca de porão
Beiço de gamela
Venta de moela
Moleque ladrão


Estas modalidades, entretanto, não foram as primeiras na literatura de cordel. Ao contrário, ela vieram quase um século depois das primeiras manifestações mais rudimentares que permitiram, inicialmente, as estrofes de quatro versos de sete sílabas.

04 - Estrofes de quatro versos de sete sílabas

O Mergulhão quando canta
Incha a veia do pescoço
Parece um cachorro velho
Quando está roendo osso.

Não tenho medo do homem
Nem do ronco que ele tem
Um besouro também ronca
Vou olhar não é ninguém


A evolução desta modalidade se deu naturalmente. Vejamos a última estrofe de quatro versos acrescida de mais dois, formando a nossa atual e definitiva sextilha:

Meu avô tinha um ditado
meu pai dizia também:
não tenho medo do homem
nem do ronco que ele tem
um besouro também ronca
vou olhar não é ninguém.


05 - Sextilhas

Agora, de posse da técnica de fazer sextilhas, e uma vez consagradas pelos autores, esta modalidade passou a ser a mais indicada para os longos poemas romanceados, É a modalidade mais rica, obrigatória no início de qualquer combate poético, nas longas narrativas e nos folhetos de época. Também muito usadas nas sátiras políticas e sociais. É uma modalidade que apresenta nada menos de cinco estilos: aberto, fechado, solto, corrido e desencontrado.

Exemplos:

Aberto:
Aqui, o 1º, o 3º e o 5º versos são livres. Enquanto que: o 2º, o 4º e o 6º rimam entre si.

Felicidade, és um sol
dourando a manhã da vida,
és como um pingo de orvalho
molhando a flor ressequida
és a esperança fagueira
da mocidade florida.


Fechado:
Aqui, o 1º, o 3º e o 5º rimam entre si e, o 2º, o 4º e o 6º, também rimam entre si.

Da inspiração mais pura,
no mais luminoso dia,
porque cordel é cultura
nasceu nossa Academia
o céu da literatura,
a casa da poesia.


Solto:
Aqui, o 1º e o 3º rimam entre si; o 2º e o 4º rimam entre si; o 5º e o 6º são livres.

Não sou rico nem sou pobre
não sou velho nem sou moço
não sou ouro nem sou cobre
sou feito de carne e osso
sou ligeiro como o gato
corro mais do que o vento.


Corrido:
Aqui, o 1º e o 2º rimam entre si; o 3º é livre; o 4º e o 5º rimam entre si, e o 6º rima com o 3º

Sou poeta repentista
Foi Deus quem me fez artista
Ninguém toma o meu fadário
O meu valor é antigo
Morrendo eu levo comigo
E ninguém faz inventário


Desencontrado:
Aqui, o 1º é livre; o 2º rima com o 3º; o 4º rima com o 5º e o 6º rima com o 2º e o 3º.

Meu pai foi homem de bem
Honesto e trabalhador
Nunca negou um favor
Ao semelhante, também
Nunca falou de ninguém
Era um homem de valor.


06 - Setilhas
A setilha é uma modalidade relativamente recente. Uma prova disso está na ausência quase completa dela na grande produção de Leandro Gomes de Barros. Sim, porque pela beleza rítmica que essas estrofes oferecem ao declamador, os grandes poetas não conseguiram fugir à tentação de produzi-las. Para alguns, as setilhas, estrofes de sete versos de sete sílabas, foram criadas por José Galdino da Silva Duda, 1866 - 1931. A verdade é que o autor mais rico nessas composições, talvez por se tratar do maior humorista da literatura, de cordel, foi o poeta pernambucano José Pacheco da Rocha, 1890 - 1954.

Vejamos um pouco do seu poema:

A CHEGADA DE LAMPIÃO NO INFERNO,

Vamos tratar da chegada
quando Lampião bateu
um moleque ainda moço
no portão apareceu.
- Quem é você, Cavalheiro -
- Moleque, sou cangaceiro -
Lampião lhe respondeu.

Moleque não, sou vigia
e não sou o seu parceiro
e você aqui não entra
sem dizer quem é primeiro
- Moleque, abra o portão
saiba que sou Lampião
assombro do mundo inteiro.

- Não senhor - Satanás, disse
vá dizer que vá embora
só me chega gente ruim
eu ando muito caipora
e já estou com vontade
de mandar mais da metade
dos que tem aqui pra fora.


Excelente para ser cantada nas reuniões festivas ou nas feiras, esta modalidade é, ainda hoje, muito usada pelos cordelistas. Esta modalidade é, também, usada em vários estilos de mourão, que pode ser cantado em seis, sete, oito e dez versos de sete sílabas.

Exemplos:

Cantador A
- Eu sou maior do que Deus
maior do que Deus eu sou


Cantador B
- Você diz que não se engana
mas agora se enganou


Cantador A
- Eu não estou enganado
eu sou maior no pecado
porque Deus nunca pecou.


Ou com todos os versos rimados, a exemplo das sextilhas explicadas antes:

Cantador A -
Este verso não é seu
você tomou emprestado


Cantador B -
Não reclame o verso meu
que é certo e metrificado


Cantador A -
Esse verso é de Noberto
Se fosse seu estava certo
como não é está errado.


07 - Oito pés de quadrão ou Oitavas

Os oito pés de quadrão, ou simplesmente oitavas, são estrofes de oito versos de sete sílabas. A diferença dessas estrofes de cunho popular para as de linha clássica é apenas a disposição das rimas. Vejam como o primeiro e o quinto versos desta oitava de Casimiro de Abreu (1837 - 1860) são órfãos:

Como são belos os dias
Do despontar da existência
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar - é lago sereno,
O Céu - Um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida um hino de amor.


Na estrofe popular aparecem os primeiros três versos rimados entre si; também o quinto, o sexto e o sétimo, e finalmente o quarto com o último, não havendo, portanto um único verso órfão.

Assim:

Diga Deus Onipotente
Se é você, realmente
Que autoriza, que consente
No meu sertão tanta dor
Se o povo imerso no lodo
apregoa com denodo
que seu coração é todo
De luz, de paz e de amor.


08 - Décimas

As décimas, dez versos de sete sílabas, são, desde sua criação no limiar do nosso século, as mais usadas pelos poetas de bancada e pelos repentistas. Excelentes para glosar motes, esta modalidade só perde para as sextilhas, especialmente escolhidas para narrativas de longo fôlego. Ainda assim, entre muitos exemplos, as décimas foram escolhidas por Leandro Gomes de Barros para compor o longo poema épico de cavalaria

A BATALHA DE OLIVEIROS COM FERRABRAZ, baseado na obra do imperador francês Carlos Magno:

Eram doze cavalheiros
Homens muito valorosos
Destemidos, corajosos
Entre todos os Guerreiros
Como bem fosse Oliveiros
um dos pares de fiança
Que sua perseverança
Venceu todos os infiéis
Eram uns leões cruéis
Os doze pares de França.


09 - Martelo Agalopado

O Martelo agalopado, estrofe dez versos de dez sílabas, é uma das modalidades mais antigas na literatura de cordel. Criada pelo professor Jaime Pedro Martelo (1665 - 1727), as martelianas não tinham, como o nosso martelo agalopado, compromisso com o número de versos para a composição das estrofes. Alongava-se com rimas pares, até completar o sentido desejado.

Como exemplo, vejamos estes alexandrinos

"Visitando Deus a Adão no Paraíso
achou-o triste por viver no abandono,
fê-lo dormir logo um pesado sono
e lhe arrancou uma costela, de improviso
estando fresca ficou Deus indeciso
e a pôs ao Sol para secar um momento
mas por causa, talvez dum esquecimento
chegou um cachorro e a carregou,
nessa hora furioso Deus ficou
com a grande ousadia do animal

que lhe furtara o bom material
feito para a construção da mulher,
estou certo, acredite quem quiser
eu não sou mentiroso nem vilão,
nessa hora correu Deus atrás do cão
e não podendo alcançar-lhe e dá-lhe cabo
cortou-lhe simplesmente o meio rabo
e enquanto Adão estava na trevas
Deus pegou o rabo do cão e fez a Eva."


Com tamanha irresponsabilidade, totalmente inaceitável na literatura de cordel, o estilo mergulhou, desde o desaparecimento do professor Jaime Pedro Martelo em 1727, em completo esquecimento, até que em 1898, José Galdino da Silva Duda dava à luz feição definitiva ao nosso atual martelo agalopado, tão querido quanto lindo. Pedro Bandeira não nos deixa mentir:

Admiro demais o ser humano
que é gerado num ventre feminino
envolvido nas dobras do destino
e calibrado nas leis do Soberano
quando faltam três meses para um ano
a mãe pega a sentir uma moleza
entre gritos lamúrias e esperteza
nasce o homem e aos poucos vai crescendo
e quando aprende a falar já é dizendo:
QUANTO É GRANDE O PODER DA NATUREZA.


Há, também, o martelo de seis versos, como sempre, refinado, conforme veremos nesta estrofe:

Tenho agora um martelo de dez quinas
fabricado por mãos misteriosas
enfeitado de pedras cristalinas
das mais raras, bastante preciosas,
foi achado nas águas saturninas
pelas musas do céu, filhas ditosas.



10 - Galope à Beira Mar

Com versos de onze sílabas, portanto mais longos do que os de martelo agalopado, são os de galope à beira mar, como estes da autoria de Joaquim Filho:

Falei do sopapo das águas barrentas
de uma cigana de corpo bem feito
da Lua, bonita brilhando no leito
da escuridão das nuvens cinzentas
do eco do grande furor das tormentas
da água da chuva que vem pra molhar
do baile das ondas, que lindo bailar
da areia branca, da cor de cambraia
da bela paisagem na beira da praia
ASSIM É GALOPE NA BEIRA DO MAR.


Logicamente que há o galope alagoano, à feição de martelo agalopado, com dez versos de dez sílabas cuja diferença única é a obrigatoriedade do mote: "Nos dez pés de galope alagoano".

11 - Meia Quadra

Outra interessante modalidade é a Meia Quadra ou versos de quinze sílabas. Não sabemos porque se convencionou chamar de meia quadra, quando poderia, muito bem, se chamar de quadra e meia ou até de quadra dupla. As rimas são emparelhadas e os versos, assim compostos:

Quando eu disser dado é dedo você diga dedo é dado
Quando eu disser gado é boi você diga boi é gado
Quando eu disser lado é banda você diga banda é lado
Quando eu disser pão é massa você diga massa é pão

Quando eu disser não é sim você diga sim é não
Quando eu disser veia é sangue você diga sangue é veia
Quando eu disser meia quadra você diga quadra e meia
Quando eu disser quadra e meia você diga meio quadrão.


A classificação da literatura de cordel tem sido objeto da preocupação dos chamados iniciados, pesquisadores e estudiosos. As classificações mais conhecidas são a francesa de Robert Mandrou, a espanhola de Julio Caro Baroja, as brasileiras de Ariano Suassuna, Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa, Roberto Câmara Benjamin e Carlos Alberto Azevedo. Mas a classificação autenticamente popular nasceu da boca dos próprios poetas.

No limiar do presente século, quando já brilhava intensamente à luz de Leandro Gomes de Barros, fluía abundante o estro de Silvino Pirauá e jorrava preciosa a veia poética de José. Galdino da Silva Duda Esses enviados especiais passaram a dominar com facilidade a rima escorregadia, amoldando, também, no corpo da estrofe o verso rebelde. Era o início de uma literatura tipicamente nordestina e por extensão, brasileira, não havendo mais, nos nossos dias, qualquer vestígio da herança peninsular.

Atualmente a literatura de cordel é escrita em composições que vão desde os versos de quatro ou cinco sílabas ao grande alexandrino. Até mesmo os princípios conservadores defendidos pelos nossos autores ortodoxos referem-se a uma tradição brasileira e não portuguesa ou espanhola. Os textos dos autores contemporâneos, apresentam um cuidado especial com a uniformização ortográfica, com o primor das rimas, com a beleza rítmica e com a preciosidade sonora.

Finalizando esta explanação, reafirmamos, de acordo com o que foi lido e ouvido, que a literatura de cordel nordestina é uma manifestação da cultura popular tradicional, também chamada de folheto ou romance que, partindo do Nordeste, espalhou-se por todo o país, pelo processo migratório do sertanejo-nordestino.

.Atenção: Os temas do cordel não são limitados às histórias de personagens marcantes do nordeste brasileiro como Lampião, Padre Cícero, etc.

Entre os grandes cordelistas
Nós poderemos citar,
Desde aquele mais antigo
Até hoje, meu amigo,
Alguns que nos vão mostrar
Como é bela a natureza
Daquele que, com certeza,
Faz seu viver a rimar.


Antônio Francisco

Antônio Francisco Teixeira de Melo (Mossoró, 21 de outubro de 1949) é um cordelista potiguar. É filho de Francisco Petronilo de Melo e Pêdra Teixeira de Melo. Graduado em História pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Poeta popular, cordelista, xilógrafo e compositor, ainda confecciona placas. Aos 46 anos, muito tardiamente, começou sua carreira literária, já que era dedicado ao esporte, fazia muitas viagens de bicicleta pelo Nordeste e não tinha tempo para outras atividades. Muitos de seus poemas já são alvo de estudo de vários compositores do Rio Grande do Norte e de outros estados brasileiros, interessados na grande musicalidade que possuem. Em 15 de Maio de 2006, tomou posse na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, na cadeira de número 15, cujo patrono é o saudoso poeta cearense Patativa do Assaré.

Em qualquer lista que reúna os grandes nomes da Literatura de Cordel, especialmente os que estão em atividade, não pode faltar o de Antônio Francisco.

É autor dos poemas, “Meu Sonho”, “O Guarda-Chuva de Prata”, “Os Sete Constituintes” ou “Os Animais têm Razão”, “Aquela Dose de Amor”, “A Oitava Maravilha” ou a “Lenda de Cafuné”, “A Cidade dos Cegos” ou “História de Pescador”, “As Seis Moedas de Ouro”, “A Arca de Noé”, “Do Outro Lado do Véu”, “Confusão no Cemitério”, “O Ataque de Mossoró ao Bando de Lampião”, “A Lenda da Ilha Amarela”, “Um Conto bem Contado”, “A Casa que a Fome Mora”, “Um Bairro Chamado Lagoa do Mato”, “O Duelo de Bangala”, “O Feiticeiro do Sal”, “Uma Carrada de Gente”, “No Topo da Vaidade”, “Uma Carta para a Alma de Pero Vaz de Caminha”, “Uma Esmola de Sombra”, “O Rio de Mossoró e as Lágrimas que eu Derramei”, “O Lado Bom da Preguiça”, “A Resposta” e “De Calça Curta e Chinela”, editadas em folhetos ou em seus livros “Dez Cordéis num Cordel Só”, “Por Motivo de Versos” e “Veredas de Sombras”, editados pela Queima Bucha.

Reunidos recentemente no livro Dez Cordéis num Cordel Só, da Editora Queima Bucha, de Mossoró - RN:

Meu Sonho, Aquela dose de amor, O Guarda- Chuva de Prata, As seis moedas de ouro, Do outro lado do véu, A oitava maravilha ou A lenda de Cafuné, Os sete constituintes ou Os animais têm razão, O feiticeiro do sal, A cidade dos cegos ou História de pescador, A Arca de Noé, Confusão no cemitério, O ataque de Mossoró ao bando de Lampião, A lenda da Ilha Amarela, Um conto bem contado, A casa que a fome mora, Um bairro chamado Lagoa do Mato, O duelo de bengala, Uma carrada de gente, No topo da vaidade, Uma carta para a alma de Pero Vaz de Caminha, Uma esmola de sombra.

Destaco, a seguir, a obra:

OS SETE CONSTITUINTES

Quem já passou no sertão
E viu o solo rachado,
A caatinga cor de cinza,
Duvido não ter parado
Pra ficar olhando o verde
Do juazeiro copado.

E sair dali pensando:
Como pode a natureza
Num clima tão quente e seco,
Numa terra indefesa
Com tanta adversidade
Criar tamanha beleza.

O juazeiro, seu moço,
É pra nós a resistência,
A força, a garra e a saga,
O grito de independência
Do sertanejo que luta
Na frente da emergência.

Nos seus galhos se agasalham
Do periquito ao cancão.
É hotel do retirante
Que anda de pé no chão,
O general da caatinga
E o vigia do sertão.

E foi debaixo de um deles
Que eu vi um porco falando,
Um cachorro e uma cobra
E um burro reclamando,
Um rato e um morcego
E uma vaca escutando.

Isso já faz tanto tempo
Que eu nem me lembro mais
Se foi pra lá de Fortim,
Se foi pra cá de Cristais,
Eu só me lembro direito
Do que disse os animais.

Eu vinha de Canindé
Com sono e muito cansado,
Quando vi perto da estrada
Um juazeiro copado.
Subi, armei minha rede
E fiquei ali deitado.

Como a noite estava linda,
Procurei ver o cruzeiro,
Mas, cansado como estava,
Peguei no sono ligeiro.
Só acordei com uns gritos
Debaixo do juazeiro.

Quando eu olhei para baixo
Eu vi um porco falando,
Um cachorro e uma cobra
E um burro reclamando,
Um rato e um morcego
E uma vaca escutando.
(...)

Apolônio Alves dos Santos


Natural de Guarabira, PB, transferiu-se para o Rio de Janeiro no ano de 1950, onde exerceu a profissão de pedreiro, até viver da sua poesia. Seu primeiro folheto foi "MARIA CARA DE PAU E O PRÍNCIPE GREGORIANO", publicado ainda em Guarabira. Faleceu em 1998, em Campina Grande, na Paraíba, deixando aproximadamente 120 folhetos publicados e acreditando ser o folheto "EPITÁCIO E MARINA", o mais importante da sua carreira de poeta cordelista.


Arievaldo Viana Lima

Poeta popular, radialista e publicitário, nasceu em Fazenda Ouro Preto, Quixeramobim-CE, aos 18 de setembro de 1967. Começou a publicar seus folhetos em 1989. É o criador do Projeto ACORDA CORDEL na Sala de Aula, que utiliza a poesia popular na alfabetização de jovens e adultos. Em 2000, foi eleito membro da ABLC, na qual ocupa a cadeira de nº 40, patronímica de João Melchíades Ferreira.

Um dos seus diversos cordéis é:

História da Rainha Esther
Autor: Arievaldo Viana


Supremo Ser Incriado
Santo Deus Onipotente
Manda teus raios de luz
Ilumina a minha mente
Para transformar em versos
Uma história comovente

Falo da vida de Ester
Que na Bíblia está descrita
Era uma judia virtuosa
E extremamente bonita
Por obra e graça divina
Teve venturosa dita

Foi durante o cativeiro
Do grande povo Judeu
Um rei chamado Assuero
Naqueles tempos viveu
E com o nome de Xerxes
Na História apareceu.
(...)


:: Cego Aderaldo

Cantador famoso, voz excelente, veia política apreciável. Era um dos mais inspirados de quantos que existiram nos sertões do Ceará. "Aderaldo Ferreira Araújo" era seu verdadeiro nome. Nasceu no Crato, viveu em Quixadá e morreu em Fortaleza, beirando os 90 anos, em 1967. Tomou parte em cantorias que marcaram épocas. Os versos que escreveu são lidos e conhecido em todo o Brasil

 
Uma sextilha sua, quando cantava com Antônio Felipe(violeiro):

“Tenho atração de jibóia,
Sou forte como um leão,
Na ciência em cantoria
Sou igual a Salomão,
A força deste meu peito
Vaio do braço de Sansão”.


Parte da sua:
PELEJA DO CEGO ADERALDO
COM ZÉ PRETINHO DOS TUCÚNS


(...)
C. — Disse uma vez, digo dez —
No cantar não tenho pompa!
Presentemente, não acho
Quem o meu mapa me rompa —
Paca cara pagará,
Quem a paca cara compra!

P. — Cego, teu peito é de aço —
Foi bom ferreiro que fez —
Pensei que cego não tinha
No verso tal rapidez!
Cego, se não é maçada,
Repete a paca outra vez!

C. — Arre! Que tanta pergunta
Desse preto capivara!
Não há quem cuspa pra cima,
Que não lhe caia na cara —
Quem a paca cara compra
Pagará a paca cara!

P. — Agora, cego, me ouça:
Cantarei a paca já —
Tema assim é um borrego
No bico de um carcará!
Quem a caca cara compra,
Caca caca cacará!

Houve um trovão de risadas,
Pelo verso do Pretinho.
Capitão Duda lhe disse
—Arreda pra lá, negrinho!
Vai descansar o juizo,
Que o cego canta sozinho!
(...)
Crispiniano Neto
Toma posse o poeta norte-rio-grandense


Numa sexta-feira, dia 1º de agosto de 2008, o presidente Luís Inácio Lula da Silva esteve no Rio de Janeiro e marcou presença na posse de Crispiniano Neto como acadêmico da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Lula recebeu também uma homenagem da instituição, sendo empossado como acadêmico de honra.

Nascido em Santo Antonio do Salto da Onça, Crispiniano Neto é o terceiro poeta norte-rio-grandense a se tornar imortal. Ele ocupará a cadeira 26, que tem como patrono outro potiguar, o antropólogo e historiador Luís da Câmara Cascudo, considerado o maior folclorista brasileiro e o que mais escreveu sobre as origens da literatura de cordel.
Crispim, como é conhecido entre os amigos, exerce atualmente a função de diretor geral da Fundação José Augusto, cargo que corresponde a secretário de Cultura do Estado do Rio Grande do Norte. Tem 11 livros publicados, cerca de 150 folhetos de cordel e é autor de 10 peças teatrais, entre elas "Auto da Liberdade" e "Sanduíche de gente".
A posse também marcou o lançamento do livro "Lula na literatura de cordel", da Editora Queima Bucha (RN). O evento aconteceu no Centro Cultural Ação da Cidadania e contou com a presença do ex-ministro Gilberto Gil, do seu sucessor, Juca Ferreira, dos governadores Sérgio Cabral Filho (RJ) e Wilma Faria (RN), além do presidente da ABLC,
Toma posse o poeta norte-rio-grandense

Na ocasião, Crispiniano lançou o livro Lula na Literatura de Cordel. A posse ainda foi marcada por um empolgante discurso, composto em martelo agalopado:

Discurso de posse de CRISPINIANO NETO a ABLC

01
Sento hoje à Cadeira 26
Desta nossa querida Academia,
Que é Palácio amoroso da poesia,
E é Parnaso das rimas da altivez;
Esta nossa Pasárgada sem ter reis;
Nossa Arcádia de paz e inspiração...
É o Cordel das quebradas do Sertão,
A quebrar prepotência e preconceito,
Granjeando o status do respeito
Da vivíssima cultura da nação!

02
Esta posse na ABLC
Traz a nós a grandeza da verdade,
Os sabores da imortalidade,
Uma luz que somente a alma vê,
É um texto sagrado que só lê
Quem conhece o valor dos pequeninos;
Quem mergulha no âmago dos destinos
Destes salmos de luz, de luta e louvo,
Dos saberes sagrados do meu povo,
Da cultura imortal dos nordestinos.

03
Tem pra nós as delícias dos desejos
De carinho, pão, paz, felicidade,
Fé, justiça e poder com igualdade,
Chuvas férteis nos solos sertanejos.
Ela chega com a mágica dos bafejos
De mil musas bordando cada verso,
Traz um bálsamo que cura o que é perverso,
Traz as bênçãos de Deus no que concerne
Em provar que Cordel está no cerne
Da cultura geral do universo!

04
Foi Homero um poeta como nós,
Cego, pobre, sem ouro e sem escola,
Com uma lira servindo de viola,
Esculpindo a história em verso e voz;
Dom Diniz foi um Rei, séculos após,
Mas seus versos também são cordelistas;
Gil Vicente em seus textos quinhentistas,
Calderón de La Barca e Shakespeare
Já beberam na fonte antes de ouvir
A poética dos nossos repentistas;
(...)


:: Expedito Sebastião da Silva

Expedito Sebastião da Silva nasceu em Juazeiro do Norte, Ceará, em 20 de janeiro de 1928 (dia de São Sebastião) e viveu toda a sua vida na terra do Padre Cícero, até falecer no dia 8 de agosto de 1997. Além de bom poeta, foi tipógrafo e revisor da gráfica de José Bernardo da Silva, tendo assumido, com a morte deste, a gerência da Tipografia São Francisco, rebatizada nos anos 70 como Literatura de Cordel José Bernardo da Silva e posteriormente como Lira Nordestina, como é conhecida até hoje.

De origem camponesa, conseguiu freqüentar a escola, chegando a concluir a quarta série ginasial. Durante os anos escolares começou a rascunhar seus primeiros poemas, o que acabou chamando a atenção de José Bernardo da Silva, o grande editor de Juazeiro. Seu primeiro folheto, intitulado “A moça que depois de morta dançou em São Paulo”, data de 1948. Cuidadoso com a rima e, principalmente, com a métrica, Expedito costumava revisar a obra de outros poetas que também imprimiam seus folhetos na Lira Nordestina.

Uma estrofe do seu cordel:

A OPINIÃO DOS ROMEIROS SOBRE A CANONIZACÃO
DO PADRE CÍCERO PELA IGREJA BRASILEIRA


“Essa canonização
Feita, num sistema inculto
Os romeiros consideram
Como um verdadeiro insulto
Que a todo mundo engana
E com cinismo profana
Um admirável vulto”



:: Gonçalo Ferreira da Silva

Gonçalo Ferreira da Silva poeta, contista, ensaista. Nasceu em Ipu, Ceará, no dia 20 de dezembro de 1937. Autor fecundo e de produção densa, principalmente no campo de literatura de cordel, área que mais cultiva e que mais ama. Poeta intuitivo, de técnica refinada, chega a ser primoroso em algumas estrofes.

É, porém, a abrangência dos temas que aborda que o situa entre os principais autores nacionais, tendo produzido diversos títulos com a temática de ciência e política. Quando participa de congressos e festivais é comum vê-lo contando histórias em versos rimados e de improviso. Hoje vive no Rio de Janeiro e é presidente da ABLC.

Um cordel de Gonçalo Ferreira da Silva (parte)

Labareda - O Capador de Covardes

Como criação divina
a vida fosse entendida
representaria a morte
simples porta de saída
para conduzir o homem
à plenitude da vida.

Os audazes bandoleiros
do cangaço no sertão
não davam valor à vida
desprovidos de noção
do que ela representa
para o Pai da Criação.

Numa das reuniões
que sempre fazia às tardes
Lampião chamou um cabra
e lhe falou sem alardes:
- Tu serás o Labareda
o capador de covardes.

Os componentes do grupo
do famoso Lampião
tinham seus nomes-de-guerra
e muitos tinham função
embora não fosse regra
também não era excessão.

Coube ao negro Zé Baiano
o cruel ferro abrasante,
Mariano, a palmatória
para o sujeito arrogante,
a peixeira, a Labareda
para capar delatante.
(...)


Temos ainda poetas que se equiparam, entre si e entre os acima citados, na importância do seu trabalho:


:: Elias A. de Carvalho

Elias A. de Carvalho Pernambucano de Timbaúba, além de poeta, que com tanto entusiasmo contou e cantou as coisas do seu estado e do Brasil, foi também emérito sanfoneiro, repentista e versejador, sendo intensa a sua atividade, sem prejuízo para a profissão de enfermeiro, na qual era diplomado.

Trabalhou no sanatório Alcides Carneiro, em Corrêas, na cidade de Petrópolis, estado do Rio de Janeiro, ligação que lhe permitiu preparar um importante trabalho intitulado "O ABC do corpo humano", entre os tantos outros que escreveu ao longo de sua vida.


:: Firmino Teixeira do Amaral

Foi o mais brilhante poeta popular do Piauí. Nasceu no povoado de Amarração (Luís Correia-PI) e mudou-se muito jovem para Belém-PA, tornando-se o principal poeta da Editora Guajarina, de Francisco Lopes. Escreveu a famosa Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, tida por muitos como real, mas, ao que tudo indica, foi fruto de sua imaginação. Nesta obra ele criou um novo gênero na cantoria: o "trava-língua".

Dentre as obras de sua autoria destacam-se "Pierre e Magalona", "Bataclã", "O Filho de Cancão de Fogo", "O Casamento do Bode com a Raposa" e a peleja mais genial e popular de todos os tempos: a de Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, que chegou a ser gravada por Nara Leão e João do Vale no disco OPINIÃO.


:: Francisco das Chagas Batista

Francisco das Chagas Batista Publicou, em 1902, seu primeiro folheto, Saudades do Sertão, em Campina Grande, PB. Na década de 1910, trabalhou como carregador de água e lenha e operário da Estrada de Ferro de Alagoa Grande. Por volta de 1911 estabeleceu a livraria Popular Editora, em João Pessoa, PB.

Em 1929, publicou Cantadores e Poetas Populares, pela Editora Batista Irmãos. Entre suas obras poéticas estão os folhetos A Vida de Antonio Silvino (1904), História Completa de Lampeão (1925), As Manhas de um Feiticeiro (1930) e A Escrava Isaura (1930). "Francisco das Chagas Batista não foi cantador mas um dos mais conhecidos poetas populares. Sua produção abundantíssima forneceu vasto material para a cantoria." - Luís da Câmara Cascudo.


:: Francisco Sales Arêda

Francisco Sales Arêda nasceu em Campina Grande, Paraíba, aos 25 de outubro de 1916. Grande poeta popular, foi cantador de viola, cordelista e vendedor de folhetos nas feiras. Faleceu em janeiro de 2006 em Caruaru, Pernambuco.

Cantou de 1940 a 1954, a partir de quando abandonou a viola dedicando-se exclusivamente a escrever seus folhetos e romances, entre os quais destaca-se “O homem da vaca e o poder da fortuna”, adaptado para o teatro por Ariano Suassuna.

Seu primeiro folheto foi “O casamento e herança de Chica Pançuda com Bernardo Pelado”, publicado em 1946. Sua obra é extensa e passa de uma centena de títulos, alguns dos quais ainda inéditos. Costumava usar o acróstico FSALES no final de seus poemas.


:: João Ferreira de Lima

João Ferreira de Lima era pernambucano de São José do Egito, onde nasceu em 3 de novembro de 1902. Faleceu em Caruaru, Pernambuco, em 19 de agosto de 1972. Além de poeta, era astrólogo. Foi autor do mais célebre almanaque popular nordestino, o Almanaque de Pernambuco.

Em sua obra destacam-se, pelo menos, dois grandes clássicos da Literatura de Cordel: "Proezas de João Grilo" e "Romance de Mariquinha e José de Sousa Leão". Sobre o folheto “As proezas de João Grilo” convém ressaltar o seguinte: João Ferreira de Lima o escreveu originalmente em sextilhas, num folheto de oito páginas, intitulado “As palhaçadas de João Grilo”.

Por volta de 1948, a obra foi ampliada para 32 páginas na tipografia de João Martins de Athayde, pelo poeta Delarme Monteiro. As estrofes que foram acrescentadas são todas em setilhas, sendo fácil identificar quais são as de autoria de João Ferreira de Lima


:: João Martins de Athayde

João Martins de Athayde nasceu no dia 24 de junho de 1880, em Cachoeira da Cebola, no município de Ingá, Paraíba. Trabalhou como mascate e atraído pela febre da borracha, foi para o Amazonas onde teve 25 filhos com as caboclas das tabas indígenas. Retornou ao nordeste e transferiu-se para Recife, onde fez curso de enfermagem.

Em 1921, já com bela fortuna amealhada, comprou o famoso projeto editorial de Leandro Gomes de Barros, tornando-se o maior editor de literatura de cordel de todos os tempos. Vendo que oitenta por cento dos folhetos vendidos nas feiras era de humor ou de pelejas, e tendo especial vocação para duelos verbais, inclinou sua pena para esse tipo de produção.

Usando personagens reais e fictícias, escreveu mais de uma dezena de pelejas até hoje muito procuradas e lidas, como a de "Serrador e Carneiro".


:: João Melchíades Ferreira

João Melchíades Ferreira da Silva nasceu em Bananeiras-PB aos 7 de setembro de 1869 e faleceu em João Pessoa-PB, no dia 10 de dezembro de 1933. Foi sargento do exército. Combateu na Guerra de Canudos e na questão do Acre.

É autor do primeiro folheto sobre Antônio Conselheiro e de mais de 20 folhetos, dos quais destacamos "ROMANCE DO PAVÃO MYSTERIOZO", "COMBATE DE JOSÉ COLATINO COM CARRANCA DO PIAUÍ", "ROLDÃO NO LEÃO DE OURO", "HISTÓRIA DO VALENTE ZÉ GARCIA" e "A GUERRA DE CANUDOS".


:: Joaquim Batista de Sena

Joaquim Batista de Sena nasceu no dia 21 de maio de 1912, em Fazenda Velha, do termo de Bananeiras, hoje pertencente ao município de Solânea-PB. Faleceu no distrito de Antônio Diogo (Redenção-CE) no início da década de 90. Autodidata, adquiriu vasto conhecimento sobre cultura popular e era um defensor intransigente da poesia popular nordestina. Começou como cantador de viola, permanecendo três anos neste ofício, no final da década de 30.

Sena era um grande poeta, de verve apurada e rico vocabulário. Conhecia bem os costumes, a fauna, a flora e a geografia nordestina, motivo pelo qual seus romances eram ricos em descrições dessa natureza. Pode-se dizer que com a sua morte, fechou-se um ciclo na poesia popular nordestina e o gênero “romance” perdeu um de seus maiores poetas.


:: José Camelo de Melo Resende

Os pesquisadores Átila de Almeida e José Alves Sobrinho, em sua obra Marcos e Vantagens, de 1981, assinalam que José Camelo de Melo Resende nasceu a 20 de abril de 1885, em Pilõezinhos, Paraíba, e faleceu em Rio Tinto, Paraíba, em 1964. Poeta fecundo, de fértil imaginação, bom de métrica, rima e oração, compôs verdadeiros clássicos da literatura de cordel. Pertence a segunda geração dos grandes poetas populares nordestinos, ao lado de Manoel Camilo dos Santos, Severino Borges e João José da Silva.

Sua obra mais famosa, “Romance do pavão mysteriozo”, tem uma história controversa. Segundo os pesquisadores, esse folheto foi escrito originalmente com 40 páginas, em 1923 para ser cantado em suas apresentações. João Melchíades Ferreira, ajudado por Romano Elias da Paz, obteve uma cópia do mesmo e o reescreveu com apenas 32 páginas, publicando como obra de sua autoria. Consta que José Camelo, desgostoso com o sucesso obtido por Melchíades, findou rasgando os seus originais.
Também escreveu, entre outros, Coco Verde e Melancia.


:: José
Costa Leite

José Costa Leite nasceu em Sapé, Paraíba, aos 27 de julho de 1927. Escreve desde os 20 anos de idade e é autor de centenas de títulos. É também um festejado xilógrafo, com técnica muito pessoal e apurada. Dentre os títulos de sua produção destacam-se "A FILHA QUE MATOU O PAI POR CAUSA DE UMA PITOMBA", "A MOÇA QUE PISOU SANTO ANTÔNIO NO PILÀO PRA CASAR COM O BOIADEIRO", "A VIDA DE JOÃO MALAZARTE","O CONSELHO DA MOCIDADE", entre outros.

:: José Pacheco

Há controvérsia sobre o lugar de nascimento de José Pacheco. Para alguns, ele nasceu em Porto Calvo, Alagoas; há quem firme ter sido o autor de "A Chegada de Lampião no Inferno", pernambucano de Correntes.

A verdade é que José Pacheco, que teria nascido em 1890, faleceu em Maceió na década de 50, havendo quem informe a data de 27 de abril de 1954, como a do seu falecimento. Seu gênero preferido parece ter sido o gracejo, no qual nos deu verdadeiros clássicos. Escreveu também folhetos de outros gêneros.


:: Leandro Gomes de Barros

O paraibano Leandro Gomes de Barros, pioneiro na publicação de folhetos rimados, é autor de uma obra vastíssima e da mais alta qualidade, o que lhe confere, sem exageros, o título de poeta maior da Literatura de Cordel. Nascido em Pombal-PB, em 19 de novembro de 1865, faleceu no Recife-PE, em 04 de março de 1918, deixando um legado cerca de mil folhetos escritos, embora centro cultural algum registre tal façanha.

Foi, porém, o maior editor antes de João Martins de Athayde, que o sucedeu. O vigoroso programa editorial de Leandro levou a Literatura de cordel às mais distantes regiões, graças ao bem sucedido projeto de redistribuição através dos chamados agentes.
É de sua autoria O Cavalo que defecava dinheiro.


:: Manoel Camilo dos Santos

Manoel Camilo dos Santos nasceu nasceu em Guarabora, Paraíba, no dia 9 de junho de 1905. Foi cantador na década de 30. Tendo de cantar em 1940, dedicou-se a escrever e editar folhetos. Iniciou as atividades editoriais em sua cidade natal, indo continuá-las em Campina Grande, onde reside.

A Folhateria Santos, por ele fundada, cede, anos depois, seu lugar a A "ESTRELA" DA POESIA, que ele mantém mais como um símbolo, sob cuja égide vem fazendo publicar os raros folhetos que ainda escreve.

Manoel é membro fundador da Academia Brasileira de Cordel, onde ocupa a cadeira nº 25, que tem como patrono Inácio Catingueira. Repentista e violeiro, é autor de mais de 80 folhetos.


:: Manoel d'Almeida Filho

Publicou em João Pessoa PB, em 1936, A Menina que Nasceu Pintada com as Unhas de Ponta e as Sobrancelhas Raspadas, seu primeiro folheto. Entre 1965 e 1995, trabalhou como selecionador de folhetos de cordel para a Luzeiro Editora, em São Paulo, o que lhe conferiu grande importância no mercado editorial do gênero.

Em 1995 tornou-se membro da ABLC, no Rio de Janeiro. Escreveu dezenas de folhetos , entre os quais Vicente, o Rei dos Ladrões (1957), Peleja de Zé do Caixão com o Diabo (1972), Vida, Vingança e Morte de Corisco (1986 ), Briga de São Pedro com Jesus por Causa do Inverno. O Milagre da Apolo 13 (1986), Como Ser Feliz no Casamento (1988), Os Amigos do Barulho e o Bandido Carne Frita (1991) e A Afilhada da Virgem da Conceição (1995).


:: Manoel Monteiro

Manoel Monteiro da Silva ou simplesmente Manoel Monteiro, como assina seus trabalhos, nasceu em Bezerro, Pernambuco, no dia 4 de Fevereiro de 1937. É o mais importante cordelista brasileiro em atividade, com uma produção densa e diversificada, abarcando toda a área da atividade humana.

Seguro no ofício de escrever versos rimados e metrificados, suas narrativas são envolventes e prendem o leitor do princípio ao fim, além da influência verbal, própria dos grandes mestres. Em razão da qualidade de sua produção, a literatura de cordel está sendo indicada para a grade escolar de várias cidades brasileiras.


:: Mestre Azulão

José João dos Santos, Mestre Azulão, é natural de Sapé, Paraíba, onde nasceu aos 8 de janeiro de 1932. Cantador de viola e poeta de bancada, autor de mais de 100 folhetos, vive há vários anos no Rio de Janeiro e atuou na famosa Feira de São Cristóvão, abrindo caminho para outros poetas nordestinos que lá se estabeleceram.

É um dos poucos cantadores vivos que ainda cantam romances, sendo freqüentemente convidado para apresentações em universidades brasileiras e até do exterior. Tem trabalhos publicados pela Tupynanquim Editora.
É de sua autoria CAMISINHA PARA TODOS.


:: Patativa do Assaré

"Eu, Antônio Gonçalves da Silva, filho de Pedro Gonçalves da Silva, e de Maria Pereira da Silva, nasci aqui a 5 de março de 1909, no Sítio denominado Serra de Santana, que dista três léguas da cidade de Assaré. Com a idade de doze anos, freqüentei uma escola muito atrasada, na qual passei quatro meses, porém sem interromper muito o trabalho de agricultor.

Saí da escola lendo o segundo livro de Felisberto de Carvalho e daquele tempo para cá não freqüentei mais escola nenhuma. Com 16 anos de idade, comprei uma viola e comecei a cantar de improviso, pois naquele tempo eu já improvisava, glosando os motes que os interessados me apresentavam.

Nunca quis fazer profissão de minha musa, sempre tenho cantado, glosado e recitado, quando alguém me convida para este fim."
Escreveu Saudação ao Juazeiro do Norte.


:: Raimundo Santa Helena

Raimundo Luiz do Nascimento nasceu em Santa Helena, município fundado por seu pai, que morreu em 1927 combatendo o bando de Lampião. Saiu de casa aos 11 anos, disposto a vingar a morte do pai.

Em Fortaleza, no Ceará, trabalhou como trocador de ônibus, garçom, baleiro e engraxate. Em 1943 ingressou na escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará. Participou da Segunda Guerra mundial, sendo por duas vezes condecorado pelo presidente da República.

Em 1945 publicou seu primeiro cordel, "Fim da guerra". Fundou a Cordelbras. Em 1983 recebeu juntamente com Gilberto Freyre, Augusto Ruschi e Jorge Amado o Prêmio Porto de São Mateus de Resistência cultural. Tem cerca de 2 milhões de exemplares de mais de 300 títulos em circulação. Foi criador da Feira de São Cristovão, no Rio de Janeiro. Escreveu ainda os livros "Lampião e o sangue de meu pai" e "Um marujo na Esquina do Mundo".


:: Severino Milanês

Severino Milanês da Silva nasceu em Vitória de Santo Antão, Pernambuco. Faleceu em seu estado natal, em 1956. Repentista e poeta de bancada, exerceu com aprumo sua atividade poética, tanto na cantoria quanto no folheto.

De sua bibliografia constam vários títulos dos gêneros discussão e peleja. A considerar também a lista de romances de amor e histórias de princesas e príncipes encantados, é de se atribuir a Milanês predileção por esses dois temas.
É de sua autoria Peleja de Pinto com Milanês.


:: Silvino Pirauá

Silvino Pirauá de Lima nasceu em Patos, em 1848 e faleceu em Bezerros, Pernambuco, em 1923. Cantador e poeta popular, foi tido como o discípulo amado de Romano do Teixeira, o célebre cantador que travou com Inácio da Catingueira legendária peleja.

Ao lado de Ugolino Nunes da Costa e Romano Caluete, seu mestre, Silvino é considerado um dos maiores da poesia popular nordestina. Juntamente com Leandro Gomes de Barros, é considerado um dos criadores da literatura de folhetos.

Além de bom improvisador e glosador, introduziu várias inovações formais na poesia popular: foi um dos primeiros a usar a sextilha e é tido como criador do "martelo agalopado".

Autor de uma das várias versões que se conhece da peleja de Romano do Teixeira com Inácio da Catingueira, escreveu, entre outros títulos: "História do capitão do navio", "As três moças que quiseram casar com um só moço", "Verdadeira peleja de Francisco Romano com Inácio da Catingueira" e "A Vingança do sultão". E ainda: “E Tudo vem a ser Nada”.


:: Zé da Luz

Severino de Andrade Silva, nasceu em Itabaiana, PB, em 29/03/1904 e faleceu no Rio de Janeiro-RJ, em 12/02/1965. O trabalho de Zé da Luz é conhecido pela linguagem matuta presente em seus cordéis.

É de sua autoria BRASÍ CABOCO


:: Zé Maria de Fortaleza

José Maria do Nascimento é natural de Aracoiaba, Ceará. Aos 13 anos veio para Fortaleza, onde iniciou sua carreira como violeiro, tornando-se conhecido pelo seu talento poético e sua maneira de cantar.

Já representou o Ceará em diversos festivais realizados em vários estados do Brasil, destacando-se duas viagens que marcaram época em sua carreira, quando esteve no Rio Grande do Sul, por ocasião do 2º Congresso Nacional de Turismo, e quando esteve em Brasília, cantando para as maiores autoridades do país.

Lançou, juntamente com Benoni Conrado, um dos primeiros discos de violeiros que se tem notícia no Brasil. Tem um livro inédito intitulado “Fagulhas do Estro”, publicou vários folhetos de cordel, destacando-se “Folclore também é cultura” e “Miscelânea de motes e glosas”.


 
COMPONENTES DA ABLC

1 - Leandro Gomes de Barros – Vaga; 2 - José Pedro de Barros - Ocupante: Gilmar Santana; 3 - Firmino Teixeira do Amaral - Ocupante: Gonçalo Ferreira da Silva; 4 - Apolônio Alves dos Santos - Ocupante: Moreira de Acopiara; 5 - José Camelo -
Ocupante: João José dos Santos; 6 - Guerra Vascurado - Ocupante: Sepalo Campelo; 7-João Martins de Athayde - Ocupante: Marcus Lucenna; 8 - Sebastião Nunes Batista Ocupante: Abelardo Nunes; 9 - Luiz da Costa Pinheiro - Ocupante: Olegário Alfredo; 10 - Catulo Cearense - Ocupante: Chico Salles; 11 - José Pacheco - Ocupante: Klévisson Viana; 12 - Francisco das Chagas Batista - Ocupante: Karoline Bispo da Silveira; 13 - Delarme Monteiro - Ocupante: Marcus Haurélio ; 14 - Pacífico Pacato Cordeiro Manso - Ocupante: William J. G. Pinto ;15 - Patativa do Assaré - Ocupante: Antônio Francisco Teixeira de Melo; 16 - Veríssimo de Melo - Ocupante: Adriana Cordeiro Azevedo; 17 - Silvino Pirauá - Ocupante: Manoel Santamaría; 18 - José Bernardo da Silva - Ocupante: Maria Rosário Pinto; 19 - Leonardo Mota - Ocupante: Messody Ramiro Benoliel; 20 - Manoel D'Almeida Filho - Ocupante: Glória Fontes Puppin; 21 - Joaquim Batista de Sena - Ocupante: Rosah Rosa; 22 - Antônio Batista Guedes - Ocupante: Argeu Sebastião da Motta23 - Capistrano de Abreu - Ocupante: Sergival Silva; 24 - Francisco Sales AredaVaga; 25 - Juvenal Galeno - Ocupante: Maria de Lourdes Aragão Catunda; 26 - Luis da Câmara Cascudo - Ocupante: Crispiniano Neto; 27 - Severino Milanês - Ocupante: Victor Alvim Garcia; 28 - Caetano Cosme da Silva - Ocupante: João Batista de Melo; 29 - Manoel Caboclo e Silva - Ocupante: Maria Luiza; 30 - José Galdino da Silva Duda - Ocupante: Cícero Pedro de Assis; 31 - Umberto Peregrino - Ocupante: Ivamberto Albuquerque Oliveira; 32 - José da Luz - Ocupante: Antônio de Araújo (Campinense); 33 - Rodolfo Coelho Cavalcante -Ocupante: Wanda Brauer; 34 - Manoel Camilo dos Santos - Ocupante: Luis Nunes Alves (Severino Sertanejo); 35 - Manoel Pereira Sobrinho - Ocupante: Sávio Pinheiro; 36 - Expedito Sebastião da Silva - Ocupante: João Firmino Cabral; 37 - José Soares - Ocupante: J. Victtor; 38 - Manoel Tomaz de Assis - Ocupante: Manoel Monteiro; 39 - Sebastião do Nascimento - Ocupante: Pedro Costa; 40 - João Mequíades Ferreira - Ocupante: Arievaldo


Literatura de Cordel

A literatura de cordel nordestina é uma manifestação da cultura popular tradicional, também chamada de folheto ou romance. Nascida no interior do nordeste, espalhou-se por todo o país, pelo processo migratório do sertanejo-nordestino.

De conteúdo muito diverso, essa literatura oral que abrange inúmeras modalidades, comemorou cem anos de Cordel no Brasil. O folheto é a forma tradicional de impressão.

As capas, geralmente são feitas em xilogravura. Não devemos confundir esta manifestação brasileira com aquela que era feita em Portugal que tinha este nome por ser penduranda em barbantes... veja aqui os "erros" mais comuns que circulam sobre cordel e repente

Obs: É uma difícil tarefa classificar os temas do cordel, devida à grande quantidade e variedade de assuntos abordados pelos poetas populares. OS temas envolvem histórias fantásticas, fatos jornalísticos, etc. Praticamente qualquer assunto pode virar versos nas mãos de um poeta habilidoso.

Atenção: Os temas do cordel não são limitados às histórias de personagens marcantes do nordeste brasileiro como Lampião, Padre Cícero, etc.

Oralidade de Cordel

O cordel só toma vida quando dito! E que seja sempre bem dito! Falado, cantado ou interpretado, não importa! Diga um verso de cordel e comprove! É impossível ler um cordel em "voz baixa".

Solte a voz, a emoção e o corpo! A literatura de cordel foi muito vendida em feiras do interior do nordeste. Claro que o poeta deveria utilizar de muita expressão e energia para fazer com que sua história ficasse muito interessante para convencer seu público a comprar seu folheto.

 
Modalidades da cantoria
de repente e da literatura de cordel

Seguem algumas modalidades deste rico universo da poesia popular rimada e metrificada. Vale lembrar que são mais de 50 modalidades catalogadas. Seguem alguns exemplos:
Conisdere: "X" versos livres e "A", "B", "C" e "D" versos que rimam entre si.

Sextilha (7 sílabas. Posição das rimas: XAXAXA)

“Eu aqui tenho vontade
De fazer profundo estudo
Despertar a Charles Chaplim
Gênio do Cinema Mudo
Não dizia uma palavra
E o povo entendia tudo”
(Daudeth Bandeira, repentista, cantado os gênios da humanidade)
------
Sempre tenha preferência
Por produtos mais duráveis
Sempre que possível evite
Os produtos descartáveis
Valorize e divulgue
As empresas responsáveis.

(do livro “Aquecimento Global não dá rima com legal” de César Obeid, Ed. Moderna)

----Uma sextilha com diálogos...

- Mas manhê, eu falo sério
Eu prometo, vou cuidar.
- Olha o ovo em que moramos
Não é pra um bicho ficar!
Eu trabalho o dia todo
E não tenho tempo, Oscar.

(do livro "O Cachorro do menino"
de César Obeid, Ed. Moderna)
Setilha- (7 sílabas. Posição das rimas: XAXABBA)

“Os seus filhos são heróis
Nesse solo abençoado
Onde Leandro fez verso
E nasceu Celso Furtado
Aqui eu fiquei hilário
Com a festa do Rosário
Que é a melhor do estado.”

(Severino Feitosa repentista
cantando as maravilhas da cidade de Pombal)
-----
"O leitor vira ouvinte
O escritor, menestrel
O ouvido vira voz
Neste eterno carrossel
Pois apresento agora
Com carinho e sem demora
Minhas Rimas de Cordel"

(do livro "Minhas Rimas de Cordel"
de César Obeid, Ed. Moderna)

-----
E o que causa a emissão
Desses gases violentos?
As queimadas das florestas
Que só causam sofrimentos
As indústrias e os veículos
Somos mesmo tão ridículos
Poluindo nossos ventos.

(do livro “Aquecimento Global não dá rima com legal” de César Obeid, Ed. Moderna)

 
Oitava (7 sílabas. Posição das rimas: XAABXCCB)

Não nos resta a menor dúvida
De que estamos aquecidos
Pelos gases emitidos
De uma forma tão insana
Que aumenta o efeito estufa
E qual é o resultado?
O planeta é abafado
Por ações da mão humana.

(do livro “Aquecimento Global não dá rima com legal”
de César Obeid, Ed. Moderna)

Oitava (7 sílabas. Posição das rimas: AAABBCCB)

Os aterros e lixões
Já não têm mais condições
Pois recebem caminhões
Com caçambas carregadas
Sem somar as toneladas
Repetimos velhos erros
E lotamos os aterros
Esperanças enterradas.

(do livro “Aquecimento Global não dá rima com legal” de César Obeid, Ed. Moderna)

 
Desafio em mourão (7 sílabas. A posição das rimas: XAXABBA)

Poeta A:

Vou pegar o cantador
Que sentou-se do meu lado


Poeta B:

Mas você não tem valor
Pra fazer improvisado


Poeta A:

Você não dá pra cantar
É melhor aposentar
E voltar para o roçado.


Mote em sete (Posição das rimas: ABBAACCDDC)

mote: Vou mostrar para vocês
Como é o mote em sete


Já cantei o bom martelo
Já cantei muitas sextilhas
Já falei de maravilhas
De princesas e castelo
Fabriquei um bom duelo
Publiquei na internet
Minha rima não repete
Porque tenho rapidez
Vou mostrar para vocês
Como é o mote em sete


Outro exemplo, mote de uma linha:

Se o planeta é ameaçado
Pelo homem é agredido


Nosso ar é poluído
Respirar é complicado
Até água, o bem sagrado
Vai findar, não vamos ter
O que nós vamos beber
Sem ter água bem potável?
Sem ter lixo reciclável?
O futuro, o que vai ser?

(do livro "Vida Rima com Cordel" 
de César Obeid, Ed. Salesiana)

Martelo alagoano (10 sílabas, 10 versos. Posição das rimas: ABBAACCDDC.)

A toada eu acho tão bonita
Ritmada e também muito gostosa
De maneira perfeita e caprichosa
Quando canto o meu peito se agita
A minha alma que vibra e só palpita
Por que gosto do jeito soberano (sempre rima em "ano")
Sou poeta perfeito e veterano (sempre rima em "ano")
Que nasci pra fazer o improviso
Tirar verso da mente e do juízo
E lá vão dez de matelo alagoano.
( essa última linha,
obrigatoriamente terminará em "alagoano",
mas o texto pode ser "E tome dez de martelo alagoano")


Galope à beira mar

"Eu acho engraçado um poeta de praça
Que passa dois meses fazendo um quarteto
Com um ano de luta, é que finda um soneto
Depois que termina, ainda sem graça
Com tinta e papel, o esboço ele traça
Contando nos dedos pra metrificar
Que noites de sono ele perde a pensar
A fim de mostrar tão minguado produto
Pois desses, eu faço, dois, três, num minuto
Cantando galope na beira do mar."


Posição das rimas: ABBAACCDDC. Nesta modalidade o último verso deve terminar com a frase “Beira do mar” Ou “Beira mar” (autor: Dimas Batista. Interessante notar o pensamento do poeta improvisador, frente ao que escreve)


Cem anos de Cordel no Brasil

No Brasil, foi há aproximadamente cem anos que as histórias, acontecimentos, contos de tradição oral, foram impressos na forma de folhetos. Isso quer dizer que muitas histórias já existiam oralmente, porém sem registro conhecido.

Temos informações de o primeiro folheto de cordel impresso no Brasil aconteceu no final do século XIX, em 1890 pelo paraibano Leando Gomes de Barros. Desde então o cordel passou por diverso ciclos, teve auges e declínios, foi muito e também foi pouco lido/ouvido, tendo retomado sua força em meados dos anos 90 e hoje está muito vivo e presente em todo o país, do sertão aos centros urbanos, das escolas às universidades para todos apreciarem sua beleza de rimas.

Xilogravura

por Carolina Lopes

A xilogravura é um processo de gravação em relevo que utiliza a madeira como matriz e possibilita a reprodução da imagem gravada sobre papel ou outro suporte adequado.

Para fazer uma xilogravura é preciso uma prancha de madeira e uma ou mais ferramentas de corte, com as quais se cava a madeira de acordo com o desenho planejado.

É preciso ter em mente que as áreas cavadas não receberão tinta e que a imagem vista na madeira sairá espelhada na impressão; no caso de haver texto, grava-se as letras ao contrário.

Depois de gravada, a matriz recebe uma fina camada de tinta espalhada com a ajuda de um rolinho de borracha. Para fazer a impressão, basta posicionar uma folha de papel sobre a prancha entintada e fazer pressão manualmente, esfregando com uma colher ou mecanicamente, com a ajuda de uma prensa.

Como podemos constatar, é uma técnica bastante simples e barata; por isso se presta tão bem às ilustrações das capas dos folhetos de cordel. Para termos uma idéia desta simplicidade, basta saber que os gravadores nordestinos fabricam suas próprias ferramentas de corte com pregos e varetas de guarda-chuva, por exemplo, para conseguirem diferentes efeitos no desenho.

História

A xilogravura já era conhecida dos egípcios, indianos e persas, que a usavam para a estampagem de tecidos. Mais tarde, foi utilizada como carimbo sobre folhas de papel para a impressão de orações budistas na China e no Japão.

Com a expansão do papel pela Europa, começa a aparecer com maior freqüência no Ocidente no final da Idade Média (segunda metade do século XIV), ao ser empregada nas cartas de baralho e imagens sacras. No século XV, pranchas de madeira eram gravadas com texto e imagem para a impressão de livros que, até então, eram escritos e ilustrados a mão. Com os tipos móveis de Gutemberg, as xilogravuras passaram a ser utilizadas somente para as ilustrações.

A descoberta das técnicas de gravura em metal relegou a xilogravura ao plano editorial no transcorrer da Idade Moderna, mas nunca desapareceu completamente como arte. Tanto que, no final do século XIX, muitos artistas de vanguarda se interessaram pela técnica e a resgataram como meio de expressão. Alguns deles optavam por produzir obras únicas, deixando de lado uma das principais características da xilogravura: a reprodução.

No Brasil, a xilogravura chega com a mudança da Família Real portuguesa para o Rio de Janeiro. A instalação de oficinas tipográficas era proibida até então. Os primeiros xilogravadores apareceram depois de 1808 e se alastraram principalmente pelas capitais, produzindo cartas de baralho, ilustrações para anúncios, livros e periódicos, rótulos, etc.

Estas matrizes, que foram produzidas ao longo do século XIX e abarrotavam as tipografias nordestinas, aparecem nos primeiros folhetos de cordel impressos, no final deste século (o mais antigo que se tem notícia é de autoria de Leandro Gomes de Barros - 1865-1918).

Os editores dos livretos decoravam as capas para torná-las mais atraentes, chamando a atenção do público para a estória narrada. Para isso, utilizavam o que estava à mão: poderiam ser os clichês de metal (são como carimbos) que começavam a substituir os de madeira no início do século XX ou simples vinhetas decorativas.

A xilogravura como ilustração, feita sob encomenda para determinado título, nasce da necessidade de substituir os clichês de metal já gastos. Por isso, não é difícil encontrar xilogravuras de capas de cordel imitando desenhos e fotografias de clichês. Mas, a xilogravura popular nordestina ganhou fama pela qualidade e originalidade de seus artistas.

Hoje em dia, muitos gravadores nordestinos vendem suas gravuras soltas além de continuarem a produzir ilustrações para as capas dos cordéis. Gravadores como J. Borges, José Lourenço, Jerônimo e muitos outros, expõem seus trabalhos em importantes instituições no Brasil e no exterior.

Informações equivocadas sobre a literatura de cordel e o repente de viola

Aqui você vai encontrar uma relação dos erros mais comuns que os sites e livros nos informam sobre o cordel e o repente. Em breve, colocarei outros tantos:

- O folheto brasileiro pode ser escrito em prosa ou em verso. Nunca! O cordel brasileiro é invariavelmente escrito em versos. A literatura de cordel ibérica é que poderia ser, tanto em prosa como em verso.

-"Vaca Estrela e Boi Fubá" do poeta Patativa do Assaré é literatura de cordel. Não! O mestre Patativa escreveu muito "poesia matuta", outro estilo da literatura sertanejo- nordestina- Que é diferente do cordel:

O cordel utiliza as modalidades da cantoria de viola, e sempre rimas com o mesmo som.

A Poesia Matuta usa muito quadras e rimas com som parecido.

- Cordel e repente são as mesmas manifestações. Não! A literatura de cordel e o repente são duas manifestações distintas, embora interligadas.

O cordel é diferente
Do repente improvisado
O cordel é sempre escrito
Em folheto e declamado
O repente é improviso
Sem ter nada decorado.

(Estrofe retirada do livro "Vida Rima com cordel" de César Obeid, Ed. Salesiana.)

- O improviso do tipo "embolada", feito ao som de pandeiros, segue as regras do cordel.
Não! A manifestação de improviso que deu origem à literatura de cordel, é a cantoria feita com viola, não com pandeiro. Existem muitas outras formas de improviso poético pelo Brasil (Cururu, Rap, Partido alto, etc) cada um desenvolvido em uma região e com características e tradições próprias.

- Os folhetos de cordel são feitos em papel de péssima qualidade. Não! Hoje em dia os poetas utilizam o melhor recurso gráfico possível para a impressão dos seus folhetos.

- A literatura de cordel é assim chamada pelo fato dos folhetos serem expostos pendurados em barbantes e vendidos em feiras do nordeste brasileiro.
Não! A frase estaria certa se terminasse assim: "A literatura de cordel é assim chamada pelo fato dos folhetos serem expostos pendurados em barbantes e vendidos em feiras em Portugal. No nordeste, o nome dado é "folhetos" ou "romance". No Brasil, muitos cordelistas não perpetuaram a tradição de pendurar folhetos em barbantes e vendiam seus folhetos em bancas, no chão, etc.

- Todo cordel tem ilustração em xilogravura.
Muitos tem, outros não. Embora a xilogravura esteja umbilicalmente ligada aos folhetos de cordel.

- Repente é o desafio de cantadores.
Esta é apenas uma das mais de cinqüenta modalidades do universo da cantoria nordestina.

- Todo repentista é nordestino. Não! Temos inúmeras manifestações de improviso poético por todo o Brasil, América Latina, Europa, Ásia, enfim, por todo o mundo...

Poesia Repentista

É feita pelo cantador repentista que utiliza-se da viola nordestina, faz a chamada cantoria "pé- de- parede". O repentismo de viola agrega inúmeras modalidades. É a forma de improviso que mais se difundiu pelo país, também pelo processo migratório. O repentismo também é difundido em festivais. Cuidado para não confundir o repente de viola com a embolada ou o Rap... veja aqui os "erros" mais comuns que circulam sobre cordel e repente

Viola Nordestina para a Cantoria de Improviso!

A viola utilizada pelo repentista pode ser a mesma utilizada pelo cantor sertanejo, ou seja 10 cordas, porém a afinação e o número de cordas não são os mesmos. Os repentistas utilizam sete cordas, das quais três são de violão/aço e quatro cordas são de guitarra.

Vale lembrar que os cantadores repetem as diversas melodias para inserir os versos improvisados em uma demonstração de incrível habilidade e talento para desenvolveras rimas com conteúdo em poucos segundos.

Onde existe o repentismo de viola nordestino, ouvir-se-á dizer o termo "pé-de-parede, ou outras tantas vezes, "pé-da-parede". Dois cantadores fazem sua apresentação em bares ou casas de família e ficam por mais de quatro horas improvisando, em diversas melodias e cantando os temas propostos pela platéia.

A FORMA DE PAGAMENTO DO CANTADOR: A Bandeja
Tradicionalmente, os cantadores colocam uma bacia aos seus pés, o dono da casa, assim chamado o dono do bar ou quem organizou a cantoria, abre a noite colocando uma quantia na bacia, e este incentiva os convidados a pagarem também, quanto mais alta é a quantia que o dono da casa abre a noite, mais os convidados acompanham e vão pagando de acordo com os motes e canções solicitadas.

A melhor fonte de pesquisa dessa manifestação é o livro de Maria Ignes Ayala- No Arranco do Grito- Editora Ática. Ela faz um levantamento das cantorias tradicionais em São Paulo no início dos anos 80 e nos conta que até meados da década de 80 a cantoria era restrita a poucos bares do Brás e da Rua Augusta.

Hoje notamos o repentismo em praticamente toda Grande São Paulo e capital. Calculo em média, 50 cantorias por final de semana realizadas em São Paulo, o que é um número muito animador, ou seja, o povo nordestino, distante da sua terra, ainda ama o som da viola e os versos improvisados.

FESTIVAIS DE REPENTE

Os festivais de repente começaram a surgir, com mais frequência, nos anos 50.

Todo festival é competitivo, ou seja os cantadores entram para obterem o melhor resultado, perante os seus oponentes. Os festivais são muito importantes pois, neles, o público têm a oportunidade de ver vários cantadores juntos e fazer melhor suas comparações e escolhas.

Além de importante para o público é fundamental para o desenvolvimento dos próprios cantadores, que são agrupados e trocam experiências e vivências.

Todo festival têm uma mesa julgadora, geralmente composta por poetas, apologistas, artistas ou organizadores que conhecem profundamente todas as regras e modalidades do universo da cantoria. Em alguns festivais é comum ter a presença do presidente da mesa julgadora.

Os critérios analisados pela comissão são; rima, métrica e oração.

 
PALESTRA SOBRE LITERATURA DE CORDEL
NO HOTEL BARREIRA ROXA
OFERECIDA PELO LIONS CLUBE DE NATAL NORTE

por: Rosa Ramos Regis da Silva

Natal, 27 de agosto de 2008
Rosa Regis e ABLC
Enviado por Rosa Regis em 27/11/2008
Alterado em 31/01/2018
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